tratar do corpo é também tratar do afeto — Vinte Anos para Descobrir a minha Vagina, de Anna Luxo

Publicado pela editora Urutau em 2022, Vinte Anos para Descobrir a Minha Vagina é a estreia na poesia da escritora e artista Anna Luxo, cuja incursão pela literatura lésbica e feminista já vem sendo estabelecida há algum tempo, perpassando pelo universo dos blogs, das zines e das redes sociais. Na orelha do livro, ela revela ter buscado inspiração em Rupi Kaur, Monique Wittig e Ryane Leão, antecipando tratar-se de uma leitura que “atinge em cheio”, que se propõe a trazer novas perspectivas de forma acessível, podendo alcançar — e produzir discussão — em torno da realidade de meninas e mulheres brasileiras.

Nesse sentido, Vinte Anos para Descobrir a Minha Vagina evoca discussões importantes, mas pouco abordadas dentro da literatura — e fora dela — como a infância deslocada da ideia de feminilidade, o desconhecimento do próprio corpo, a pressão da heteronormatividade, o vaginismo e a lesbianidade enquanto territorialização afetiva e política.

O livro traça uma cronologia em torno de seu sujeito principal — uma mulher em busca do autoconhecimento — sendo dividido em três partes: “niñas com vaginas”, “adolescentes meninas com vaginas” e “jovens adultas com vaginas”. Perpassando, assim, infância, adolescência e o início da idade adulta, Vinte Anos para Descobrir a Minha Vagina traz tanto recortes autoficcionais quanto reflexões políticas, propondo-se a ser um texto que arremata tanto a esfera individual quanto a coletiva. Como afirma Luxo em seu prefácio:

“(…) não há nada mais original do que a história de uma mulher com vagina.

Apesar disso, você não está se deparando com uma autobiografia ou algo parecido. Esta é uma coletânea de textos que, em alguns momentos, são realmente pessoais, mas, em outros, são pura ficção social feminista: situações que não ocorreram exatamente desta maneira, mas de forma parecida, histórias de outras mulheres ou amigas ou exemplos gerais”

(p. 9)

A primeira seção do livro, “niñas com vaginas”, inicia-se com uma epígrafe bastante provocadora:

a canção certa seria:

ciranda, cirandinha
yo no queremos ser ninãs
yo no queremos ser ninãs
yo no queremos ser ninãs
yo no queremos ser ninãs”

Esse excerto parece sumarizar os poemas que compõem esta seção: ao tratar de uma infância feminina que não se interessa pela feminilidade, aparecem temas como o não-pertencimento, o descobrimento do próprio corpo e a educação patriarcal que se inicia dentro da família, trazendo também relatos sobre o abuso sexual infantil. Logo, nessa seção, se constrói um sentimento de rejeição, vergonha e auto-ódio em relação a ter nascido mulher (principalmente dirigido ao órgão sexual feminino), que surge tanto na epígrafe como nos textos, como se vê no poema “mãe de menina” (p. 17):

“nascer menina
me fez odiar a ideia de ter filhos
e temer criar meninos

me angustia ter tantas crianças com vagina nessa família
porque foi nessa família que eu aprendi a odiar os outros espaços
de que não pude participar
pra sair do lugar onde eu nasci
com uma bendita de uma vagina
que não esconderam o suficiente para me proteger
e não me orientaram bastante
para eu me orgulhar
e enquanto essa violência não termina
algumas de nós terminamos”

Na segunda seção do livro, “adolescentes meninas com vaginas”, temos outra perspectiva — norteado pela descoberta do desejo e das primeiras experiências sexuais, o eu-lírico enfrenta a angústia de não se adequar à heteronormatividade, que surge não apenas nos relacionamentos: as aulas de educação sexual do colégio e uma consulta com a ginecologista revelam um mundo que não enxerga outro modelo de afetividade.

Nesse sentido, é em “adolescentes meninas com vaginas” que se passa a tatear de forma mais clara um senso político acerca da sexualidade, do corpo e da afetividade, confrontando o auto-ódio e a repulsa que caracterizam “niñas com vaginas”. Com sensibilidade, os poemas traçam elaborações acerca de seu entendimento enquanto lésbica; um novo olhar, mais profundo e maduro, sobre as amizades entre mulheres e, ainda, experiências como o primeiro contato com o feminismo e o aborto de uma amiga. Essa potência de auto-descoberta pode ser observada nos versos de “amor.raiz” (p. 38–39):

“eu não posso me desvencilhar do meu corpo
é osso!
somos unhas, carne e caroço
algumas partes, lá no fundo
e hoje eu posso com elas
e se for preciso,
uso a mão como extensão do corpo
retiro o mofo
limpo as entranhas
e trago-as para o exterior

eu também não posso me desvencilhar do meu sexo um pouco
entregá-lo a outros
buscá-los às segundas-feiras
e viver umas horas num estado
neutro ou nulo
num pulo
perceberiam
a minha fúria raiz
e as minhas radicais perspectivas das coisas
cravadas no colo do útero e no meu coração

eu já quis me identificar com outros
mas não só nasci mulher
fui obrigada a sê-la

não posso me desvencilhar do meu coro,
das reivindicações repetidas por anos
e não há história que me deixe mais aflita”

Por fim, a última seção de Vinte Anos para Descobrir a Minha Vagina, “jovens adultas com vaginas”, parece levar os insights que surgem em “adolescentes meninas com vaginas” adiante, com mais solidez. Aqui, os poemas assumem de fato uma visão feminista e lésbica à experiência de se ter uma vagina, propondo territorialização. São textos que trabalham as relações entre mulheres — sejam românticas, familiares ou de amizades — enquanto cuidado, afeto e zelo, principalmente pela consciência da violência masculina ser estrutural.

Apesar de trazer um viés mais politizado, em “jovens adultas com vaginas” não se perde a poesia — do contrário, a poética provocadora, ácida e retumbante de Anna Luxo se fortalece. Fica evidente a verdadeira potência dela em versos mais concisos, imagens mais abruptas e uma escrita com maior liberdade de experimentação:

“violência endógena

sua linguagem do amor
não pode ser uma linguagem de guerra”
(p. 49)

Neste poema, podemos perceber a reapropriação do termo “linguagem do amor”, muito popular e amplamente utilizado no contexto das relações afetivas, referindo-se à maneira como alguém expressa seus afetos. Ao trazer, no segundo verso, a “linguagem de guerra” como uma dessas maneiras, o eu-lírico levanta uma associação entre afetividade e violência que deve ser extinguida.

Essa construção fica mais complexa — e arrematada — a partir do título, “violência endógena”, isto é, a violência que vem de dentro, de uma tessitura interna. Pensando a proposta de Vinte Anos para Descobrir a Minha Vagina, podemos entender por “tessitura interna” o auto-ódio e a repulsa à vagina que norteiam o livro, sendo não dirigidos apenas ao órgão em si, mas ao que ele representa: a sexualidade, a identidade e, principalmente, o afeto. Logo, as mulheres aprendem a se odiarem, a verem umas às outras como inimigas e a normalizarem violências dentro de suas relações com homens.

Nesse sentido, o poema relembra as ideias centrais do livro Amar para Sobreviver, de Dee L. R. Graham, Edna I. Rawlings e Roberta K. Rigsby (tradução de Mariana Coimbra) que propõem que a dominação patriarcal gera um funcionamento similar ao do desenvolvimento da Síndrome de Estocolmo nas relações entre homens e mulheres num contexto genérico. Assim, as mulheres, na posição de “reféns”, adotam mecanismos de sobrevivência como o apego à visão masculina do mundo e o anulamento de uma identidade fora dela, levando à rivalidade feminina e à normalização de uma cultura de agressão às mulheres.

O diálogo entre os livros, porém, não se encerra neste ponto. Amar para Sobreviver toca no íntimo de Vinte Anos para Descobrir a Minha Vagina ao elencar provocações ao desvencilhamento (ou, ao menos, à criticidade) da Síndrome de Estocolmo Social, como o uso da imaginação ou da ficção a fim de se elaborar novas (ou esquecidas) perspectivas de mundo que tragam a mulher como protagonista. Ou seja, em que sua raiva não seja negada ou patologizada; em que seja possível responsabilizar seus opressores; em que o conhecimento simbólico, que extrapola o cartesiano, seja valorizado e em que a linguagem possa ser reivindicada e recriada a fim de representar as mulheres enquanto classe.

Em Vinte Anos para Descobrir a minha Vagina, esse protagonismo acaba se tornando uma espécie de jornada que norteia todo o livro, partindo de uma menina que se rejeita à uma mulher que se reconhece potência — e que se vê potência entre outras mulheres, propondo uma ética afetiva que centraliza a corporeidade, sendo esse um movimento intenso que recria a realidade desse eu-lírico, dando nome e corpo a si mesma e à suas angústias.

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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Laura Redfern Navarro

Laura Redfern Navarro

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.