revirando a linguagem como boneca russa — No Útero não existe Gravidade, de Dia Nobre

“Eu tentei me lavar dos meus pecados
Mas não era pecado algum me proteger”

Anna Triz, Muralha da China

O novo livro de Dia Nobre, No Útero não existe Gravidade, publicado pela editora Penalux em 2021, já chama a atenção do leitor por um motivo: é um livro híbrido, ou anfíbio, que não se encaixa em definição alguma por se encaixar em todas.

Trata-se de uma obra composto por relatos fragmentados que, como num quebra-cabeça, partem de um único fio. Esses relatos não se constróem, porém, apenas pela palavra: No útero não existe Gravidade também dispõe de colagens, feitas pela paraense Monique Malcher, que constituem parte integrante do livro, funcionando como mais uma possibilidade para se explorar a textualidade.

A expressividade múltipla que se molda no livro aparece como indissociável de seu conteúdo, afinal, a linguagem, aqui, aparece como recurso (ou arma) de uma menina que cedo aprende a se anular para sobreviver. No útero não existe gravidade vai mergulhar nas temáticas do abuso infantil, do abandono e do narcisismo materno, das relações familiares, da tentativa pelo afeto e da formação da identidade, traçando alguns diálogos com textos da psicanálise e da psicologia, caso do próprio título:

no útero nãoexiste

gravidade

o bebê flutua

não tem peso

é na relação com a primeira cuidadora que cria o que a psicologia chama de contorno. o abraço materno aterra as emoções que não podem ser explicadas pro ser que acabou de vir ao mundo. esse enlace faz com que o bebê teça referências sobre quem ele é, sobre a cuidadora e o mundo externo. quando isso falta,

o bebê se sente desamparado

a sensação é de estar sempre caindo. as coisas passam por eles disformes-desproporcionadas-uma-eterna-paralaxe.

eu não consegui construir bordas

(…)
(p.26)

Assim, entendemos uma narradora-personagem que é cerceada de um mundo que a esmaga, que a impede de ser filha, de ser criança e de ser “alguém”, estilhaçando-a pouco a pouco numa condenação única que, fica subentendido, seria ter nascido mulher.

Para se estabelecer, ela encontra sentido em ser a partir da figura das matryoshkas, as bonecas russas que, no livro, apresentam uma dupla-interpretação: uma boneca que se desdobra em muitas, indicando as multiplicidades do ser, ou uma mulher que se definha para caber em um espaço qualquer, seja no âmbito familiar, a escola ou os afetos.

colagem: Monique Malcher

A noção das bonecas também carrega algo de ancestral, que a escritora Gabriela Soutello aborda em seu prefácio. Afinal, a narrativa de sofrimento submerge não só a filha, mas a mãe, e a mãe antes da mãe. A discussão do particular, portanto, se estende a um tom crítico, que numa linguagem poética se debruça a uma investigação.

Essa linguagem investigativa se concebe através de uma escrita cortante, dilaceradora, construída num tempo interno mediado por um espaço da culpa, do trauma e dos abandonos vividos pela protagonista, que passa a “se enganar para sobreviver”. A escrita fragmentada do livro, portanto, comporta a dor que ele quer expressar, que se posta como um labirinto em que não há escapatória ou possibilidade de elaboração. O livro de Dia, assim, é fruto de um revide, do exercício de se romper o silêncio, mesmo que sua escrita resida num espaço entre o silêncio e o falar.

Por esse motivo, fica difícil classificá-lo dentro das normas — poesia, contos ou romance. Acredito que se trata, em suma, de um diário, por apresentar um caráter que entende-se como confessional mesclado a uma escrita que não segue um ritmo específico, mas experimenta formatos conforme busca se desdobrar em outras formas mais potentes de expressão para aquele momento em específico, estando lado a lado, portanto, com a proposta da boneca russa. Esse diário-matryoshka, porém, não é marcado por datas, e sim pela idade da protagonista, o que explica as lacunas entre os episódios narrados.

Por falar em lacunas, talvez o que haja de mais potente no livro de Dia Nobre sejam as mesmas, os espaços entre as histórias (ou os relatos) que captam um ambiente ao redor construído em lapso, uma voz que vai se estabelecendo e perturbando justamente pelo que não é dito, o que potencializa o caráter testemunhal da obra, que se faz como uma maneira de expurgar uma coleção de cicatrizes.

Em relação à construção do livro anterior, Todos os meus Humores, livro de poemas também publicado pela editora Penalux, o livro No útero não existe gravidade revela uma evolução crítica e literária da autora, que adquire um caráter mais experimental, sem medo de se deixar transbordar e ser conduzida pela linguagem, como já nos entrega a epígrafe “toda palavra é crueldade”, da poeta Orides Fontela. A palavra de Dia é cruel, e é cruel porque é certeira, porque nos encaminha para aquilo que não queremos enxergar.

Não me estendo, portanto, às nomenclaturas tradicionais de “romance”, “conto”, “diário” ou “poema” para definir o livro de Dia — elas pouco servem para absorver o que há neste projeto. O que se pode dizer, com certeza, é que No útero não existe gravidade revela uma escrita potente e, principalmente, autêntica, trazendo-nos uma espécie de peso a ser realmente dividido com o outro. Apesar das poucas páginas, porém, não se trata de um livro fácil ou para ser devorado — é uma leitura que exige cautela e entrega do leitor e seus sentidos, não por ser um livro com “conteúdo sensível”, mas por se postar como uma espécie de baú que revira a narradora e nos convida a nos revirar também.

2000, matryoshka em reinvenção. Poeta & jornalista. Editora em Ano II: ensaio e colaboradora na Fazia Poesia

2000, matryoshka em reinvenção. Poeta & jornalista. Editora em Ano II: ensaio e colaboradora na Fazia Poesia