o feminino é uma fera — uma mulher só não faz verão, de Daniela Rezende

Publicado pela editora Urutau em 2022, uma mulher só não faz verão é o livro de estreia da poeta e artista educadora paulistana Daniela Rezende. O livro traz poemas que capturam e expõem a essência da solidão feminina e seus contextos — desde a violência doméstica, o estupro, a maternidade e, até mesmo, o feminicídio.

Na tessitura da obra, pode-se perceber uma marca forte da autora ao aproximar a vivência feminina do mundo animal, trazendo uma noção de vigília e de instinto, que constrói, ainda, um interessante contraponto à visão hegemônica da mulher enquanto delicada ou bem-educada. Isso se vê no poema que inicia o livro, “animalium” (p. 13):

“mulher em pele de cordeiro
mulher que ladra não morde
mulher dada não se olha os dentes
na boca fechada não entra mulher
não se cutuca mulher com vara curta
uma mulher sozinha não faz verão
mais vale uma mulher na mão do que duas voando
mulher escaldada tem medo de água fria
quando uma mulher fala a outra abaixa a orelha
quem se mistura com mulheres, farelo come
de grão em grão, a mulher enche o papo
filha de mulher, mulherzinha é

pode ir tirando a mulherzinha da chuva”

Neste poema, ainda que haja o contraponto colocado anteriormente, tanto Daniela quanto a sociedade concordam: a mulher é uma inconveniência, um ser indesejado. Afinal, os provérbios em que Daniela substitui o nome do animal por “mulher” são sempre carregados de uma conotação negativa. Assim, ao aproximar a mulher do mundo animal, tomamos uma ideia de “presa”, estando à mercê da própria sobrevivência — ou da vontade masculina.

Essa necessidade de sobrevivência, que desmonta a autonomia da mulher, também aparece em seus momentos de solidão, quando não há ameaça, ou quando trata-se de uma investigação introspectiva do próprio corpo:

“um útero

de madrugada vem e aperta minha garganta
subindo por vez pelo corpo um milímetro

o sangue é uma extensa avenida subterrânea. os rastros em minhas
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ [pernas

são placas que não apontam direção

como as garras que estouram carapaças nos cascos de árvores
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ [velhas

ele rasteja em direção à superfície
em busca do ar como um animal marinho”

(p. 26)

Na apresentação para o livro, a poeta Fernanda Comenda coloca “O medo, a seu tempo, urge em contínua aflição e espanto no livro de Daniela”, assim, podemos compreender que a ideia de presa não abandona o eu-lírico, este que vive à sombra da onipresença de uma figura masculina, de autoridade. Logo, essa imagem atormenta, poluindo o desejo, a solitude, e a coragem — sob o risco de ter a garganta apertada pela madrugada.

Porém, o exercício em uma mulher só não faz verão parece se moldar em torno dessa voz que se desvencilha do medo e da hipervigilância, ou seja, que se constrói de maneira autônoma, ainda que timidamente. Isso pode ser visto no poema “georgia” (p. 44–45):

“uma velha recolhendo ossos no deserto
é
uma velha recolhendo ossos no deserto
minha mãe em um ônibus a caminho do sertão
é
uma velha recolhendo ossos no deserto
uma leoa habitando a imensidão estéril
é
minha mãe em um ônibus a caminho do sertão
a mãe de minha amiga morta anteontem
enterrada e pranteada ontem
que faz falta hoje e amanhã
é
uma leoa habitando a imensidão estéril
a mãe de minha amiga morta anteontem
é
minha mãe em um ônibus a caminho do sertão
é
um fruto apodrecendo fora da árvore
é
a filha apodrecendo fora da mãe
é
um vazio instaurado no sertão
é
a imensidão estéril do deserto
é
a leoa, a velha, a mãe, o fruto
é
uma velha recolhendo ossos no deserto
do pó dos ossos que faz o deserto”

Aqui, a mulher que recolhe ossos no deserto está sendo agente — que recolhe não apenas os ossos, mas as memórias do eu-lírico, enquanto a mãe viaja para o sertão. Não se vê a presença direta da figura masculina, mas ela está ali, referenciada pela imagem dos ossos, evocando o luto, o vazio, o que sobra depois da violência.

Neste poema, são justamente as emoções contraditórias que, entre o alívio e a solidão, constituem o cerne do testemunho desnudo, doloroso e incisivo de Daniela: uma mulher que pouco a pouco revela as próprias garras e dentes, esta que tem a forma de um poema.

Em uma mulher só não faz verão, a dualidade entre mulheres e homens aparece por meio de imagens próprias do reino animal, trazendo também a acepção de presa x predador e docilidade x ferocidade, estas inicialmente encaixadas nos papéis sexuais clássicos.

Porém, estas “máscaras” vão perdendo a força, dando espaço à subjetividade do eu-lírico, como em “georgia”. Podemos observar, porém, que esse movimento também é expansivo, para além do eu-lírico e seu perseguidor — no poema, percebe-se a menção à figura da mãe, da mãe de uma amiga e de uma leoa — todas estas figuras femininas que, mesmo em fuga ou em profundo desamparo psíquico, se apresentam enquanto protagonistas das situações às quais vivem (seja recolher os ossos no deserto, estar em um ônibus até o sertão ou habitando a imensidão estéril).

Pensando o título do livro, uma mulher só não faz verão, uma clara brincadeira com o dito popular “uma andorinha só não faz verão”, que remete à ideia de que um único indivíduo seria incapaz de reverter uma situação complexa, a construção poética de Daniela Rezende empreende uma elaboração em torno da solidão e do desamparo feminino, carregando também uma esperança de união, esta evidente em “georgia”. Se uma mulher não faz verão, é porque mais de uma — ou, ainda, um bando — podem fazer.

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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