Miscelânea: leituras, podcasts e outros favoritos — primeiro semestre de 2022

Esse primeiro semestre de 2022, que contou com a reabertura dos espaços ao público — após quase dois anos em quarentena — foi repleto de experiências, todas elas muito ricas, cheias de potência e encontros. Essa mudança também se refletiu nas atividades que eu já praticava antes, como a leitura e a escuta de podcasts, trazendo um ar de renovação.

Decidi, então, aproveitar este espaço para partilhar algumas dessas experiências, principalmente as que mais me tocaram. Nesse post, trago minhas leituras favoritas, os podcasts que mais gostei de escutar, as revistas que mais tenho acompanhado e os espaços literários que mais me achegaram.

*observação: os espaços citados estão todos na cidade de São Paulo, onde resido

Leituras Favoritas

Ao longo dos primeiros meses de 2022, o ritmo de leituras por aqui foi intenso, com grande variedade de editoras, temas e autorias. Analisando como um todo, percebi que busquei um repertório mais diverso pensando os gêneros literários, tendo me colocado ao desafio, por exemplo, de ler mais contos e mais livros teóricos.

Confira a lista completa:

📚 Amar para Sobreviver, de Dee L. R. Graham, Edna I. Rawlings e Roberta K. Rigsby — trad. Mariana Coimbra (editora Cassandra) — um livro denso, mas que se conecta com a experiência feminina, buscando evocar novas perspectivas a partir de provocações fundamentadas e críticas acerca do que é ser mulher. É também uma leitura acessível para quem não está acostumado ao texto acadêmico. Este foi um dos livros que não consegui deixar de lado por um minuto, e meu exemplar está repleto de marcações e post-its.

📚 Mentirosos, de E. Lockhart — trad. Flávia Souto Maior (Editora Seguinte) — esta foi uma releitura de um dos títulos que fez parte da minha adolescência, trazendo a confusão mental da protagonista, Cadence, após vivenciar um grande trauma do qual não se recorda. Me chamou a atenção a construção narrativa que mistura memória, sonho, delírio e presente, trazendo uma tessitura precisamente estilhaçada, em que a narradora é pouco confiável.

📚 Por que a criança cozinha na polenta, de Aglaja Veteranyi — trad. Fabiana Macchi (DBA) — sendo uma leitura recente — e também releitura, já que li originalmente no inglês — este provavelmente é um dos livros que mais me atravessaram nos últimos anos. Além de trazer a ruptura da infância, tema que me interessa e que pesquiso na construção do meu livro, a maneira como Veteranyi trabalha a linguagem é singular, rompendo a fronteira entre os gêneros e a psiquê de sua narradora. Destacam-se a riqueza de imagens e a valorização do silêncio na página. Recomendo a quem se interessa a investigar a hibridez no texto, mas aviso que se trata de uma leitura que exige preparo, já que aborda temas sensíveis.

📚 Romã, de Júlia de Carvalho Hansen (edições chão de feira) Romã foi o primeiro título que conheci da poeta e astróloga Júlia de Carvalho Hansen, que encontrei — ou me encontrou — despretensiosamente em uma estante da Livraria Mandarina. Trata-se de uma poesia que trabalha muito com o simbólico — mesmo quando este vem povoado de imagens telúricas e corpóreas. Romã é um livro que exige uma leitura que vem do corpo — ou, ainda, dos pulmões, que coloca em sua tessitura um convite à respiração ao longo dos poemas.
📚 Vossa Excelência, a Jojoca, de Bolívar Escobar e Gabriel Jacobi (Contravento editorial) — este na verdade foi um presente da editora Contravento, mas que me surpreendeu positivamente. Mesclando a linguagem do enigma à referências pop, certamente encontro esta obra como uma que dialoga com as inquietações da minha geração.

📚Céu noturno crivado de balas, de Ocean Vuong — trad. Rogério W. Galindo (Editora Âyiné) — além de ter um projeto gráfico muito bonito, Céu noturno crivado de balas também foi o meu primeiro contato com esse autor vietnamita-estadunidense. Me interesso bastante pela poética das fronteiras — principalmente aquelas que envolvem migrações — e este livro evoca não apenas a perda de contornos, mas o que há em volta deles: a violência policial, a homofobia, a pobreza e a violência e a subversão da língua: seja na relação com pais que, ao contrário dos filhos, não falam a língua do país em que residem; seja na possibilidade de xingar em outra língua, seja na poesia. Também foi uma leitura que cruzou bastante com um interesse meu da época — o Gaston Bachelard, que, aliás, preciso reler.

📚Meninas, de Liudmila Ulitskaia — trad. Irineu Franco Perpétuo (editora 34) — Meninas é o primeiro livro de autoria feminina a integrar a Coleção Leste, da Editora 34. Trata-se de um livro que contos que trabalha a infância de meninas em um período logo antes e logo depois da morte do Stálin. É bem perturbador, traz personagens travessas e uma escrita que vai se construindo o seu assombro aos poucos

📚 Vinte Anos para Descobrir minha Vagina, de Anna Luxo (editora Urutau) — um livro subversivo, que traz temas pouco discutidos na literatura de maneira acessível, crua e precisa, como a infância deslocada da ideia de feminilidade, o desconhecimento do próprio corpo, a pressão da heteronormatividade, o vaginismo e a lesbianidade enquanto territorialização afetiva e política. Não é um livro difícil. Essencial para quem está entrando em contato com o feminismo agora e para meninas de faixas etárias mais jovens, principalmente adolescentes.

📚MEADA, de Anna Clara de Vitto (ed. da autora) — uma obra experimental que trata do testemunho, associando escrita e fotografia. De certa forma, essa descrição encaixa todos os meus objetos de pesquisa como escritora no momento, trazendo uma poesia que chama, que convida e que subverte. MEADA é a segunda publicação autoral da poeta santista Anna Clara de Vitto, tendo sido organizada em formato artesanal e também disponibilizada na internet (acesse aqui).

📚 Três Línguas, de Verônica Ramalho (editora Córrego) — conheci a Verônica no Instagram, mas cheguei ao Três Línguas por meio da Marcela Guther. Este é um livro que investiga, que disseca, sobretudo, a construção da linguagem, seja por meio de dispositivos anatômicos, do contato com o mundo externo e do próprio significado reverberando dentro do corpo físico. São poemas curtos, em geral, mas ousados, precisos, sem medo de recair em lugares como o nojo e a vergonha. Gosto dessa proposta porque ela traz muito do ensaístico e da metalinguagem para o campo da vida, do banal e do corpo.

📚 Nós só compreendemos muito depois, de Laís Araruna de Aquino (Corsário-Satã) — após a leitura de seu Juventude, Laís me enviou seu segundo livro, Nós só compreendemos muito depois. Fiquei tão encantada com este livro — seja o projeto gráfico, seja o texto — que resolvi esperar digerir esse arrebatamento antes de falar sobre. Agora, já consigo trazer alguma digressão: a Laís é uma poeta que trabalha com conceptualizações, trazendo imagens para falar de conceitos — geralmente, imagens do assombro, que evocam quase que um sentimento de inocência para esse estranhamento. Um exemplo é um dos poemas que traz a imagem de Deus quando criança. Recomendo fortemente para quem gosta de Filosofia.

Os Podcasts que mais gostei de escutar:

O primeiro semestre de 2022 também foi muito rico ao me trazer o desafio de buscar conhecer novos podcasts ligados à produção literária — que não fossem os mesmos que sempre escuto. Entretanto, admito: não abro mão do meu queridinho, o Podcast Litterae. De qualquer forma, tive boas surpresas e compartilho aqui alguns dos meus favoritos:

✨ 451MHz

O 451MHz é o podcast da Revista Quatro Cinco Um, a revista dos livros, cujos episódios tratam do universo dos livros em geral, trazendo desde entrevistas com autores até programas com teor narrativo e educativo. A linha editorial do podcast não deixa de lado criticidade e preocupação para com questões que atravessam vivências dissidentes, como mulheres, negros e LGBT+s, sempre buscando suscitar o debate e a função política da literatura.

conheça mais: https://bit.ly/3HU3jn4

✨ Lavadeiras do São Francisco

O podcast Lavadeiras do São Francisco é um podcast produzido e apresentado por Ivandro Menezes, num formato “mesa redonda”, que geralmente traz outros entrevistados. O podcast se debruça a tratar da verve contemporânea na literatura brasileira, trazendo como temas autopublicação, escrita criativa, gêneros literários e livros a serem discutidos, com enfoque na produção nordestina. Também fala-se sobre a literatura contemporânea produzida na América Latina.

conheça mais: https://bit.ly/3xTnwES

✨ Podcast Litterae

Produzido e gravado pelos escritores Anita Deak e Paulo Salvetti, o Litterae já é há muito tempo um dos favoritos do @matryoshkaboooks. Elencando discussões pertinentes acerca dos bastidores da criação literária, são discutidos temas muito diversos, que variam do luto à produção editorial, sempre com muita propriedade. Nesse sentido, escuto o Litterae como ferramenta de estudo e pesquisa.

O podcast Litterae é dividido em 3 temporadas, sendo a primeira coordenada por Deak e Salvetti com falas de convidados selecionados; a segunda trazendo entrevistas com autoras contemporâneas (como Andréa del Fuego e Natália Zuccala); e, a terceira, consistindo em conversas entre Deak e Salvetti.

conheça mais: https://bit.ly/3nn1Qfy

Pela Internet: Revistas Literárias que mais me chamaram a atenção

Nesse primeiro semestre, também me dediquei a consumir mais conteúdos publicados nas revistas literárias espalhadas por aí. Que sorte a nossa termos uma diversidade tão potente dessas publicações, que, muitas vezes, são o primeiro contato de muitos autores com o mundo editorial. Deixo aqui as três que mais consumi, ou cujo conteúdo mais me impactou:

🌈Aboio Revista

A Aboio Revista é uma iniciativa tocada por Leopoldo Cavalcante, Anna Carolina Rizzon e Luísa Machado, estando voltada à publicação de literatura brasileira contemporânea independente. Assim, ela traz tanto conteúdo literário (como poemas, contos, crônicas e tradução) quanto textos críticos, como ensaios e resenhas. A Aboio se destaca pela curadoria e pela qualidade dos textos publicados, além de uma identidade visual minimalista, cuidadosa e única. Recentemente, a revista também lançou a Coluna Berrante, voltada à divulgação de eventos, lançamentos e pré-vendas.

conheça a revista: https://bit.ly/3ONygeC

🌈Mormaço Editorial

A revista da Mormaço Editorial é um braço da editora baiana de mesmo nome, coordenada por Maria Luiza Machado. Aberta à publicação de textos literários, com destaque à autoria feminina, nordestina e dissidente, a Mormaço se destaca pela qualidade dos textos. Além disso, a revista também publica materiais voltados à divulgação de eventos e lançamentos, realizando um trabalho cuidadoso e sensível na elaboração destes.

conheça a revista: https://bit.ly/3A5f7Rl

🌈Revista Grifo

A Revista Grifo é uma publicação Medium e no Instagram que surgiu da parceria entre Carolina Zecchinato, Isabella Azevedo e Rodrigo Almeida, e que hoje conta apenas com as duas mulheres como editoras. É organizada por edições temáticas com chamada semestral, aberta à produções textuais, audiovisuais e artes visuais, como fotografias e colagens. Em seu Instagram, a Revista traz conteúdos como recomendações de filmes e a série “trechos que grifamos”, revelando um cuidadoso trabalho curatorial.

conheça a revista: https://bit.ly/3xRdu72

Itinerários: Os queridinhos do matryoshkabooks

Com a reabertura dos espaços, como livrarias, bibliotecas e bares, os trânsitos pela cidade se tornaram mais intensos e, a partir deles, descobri lugares que se tornaram muito especiais nos últimos meses. Compartilho aqui embaixo três desses lugares:

📍Instituto Sarath

O Instituto Sarath é uma iniciativa localizada na Vila Mariana que visa a interdisciplinaridade entre Terapia, Arte & Cultura, realizando eventos como saraus, lançamentos, oficinas, cursos e, até mesmo, atendimento clínico. Com um aspecto familiar, que lembra o de uma casa, o Sarath é dividido em salões, sendo um ambiente descontraído e aconchegante, muito favorável à discussão e à realização artística.

endereço: Rua Eça de Queiroz, 346 — Vila Mariana, São Paulo — SP, 04011–031

conheça mais: https://bit.ly/3u8Ixuh

📍Livraria Mandarina

Localizada em Pinheiros, a Livraria Mandarina está ativa desde 2019. Destaca-se por sua curadoria que valoriza a produção independente, estando também antenada com as tendências literárias do momento. Além disso, a Mandarina busca resgatar uma dinâmica típica das antigas livrarias de rua: a da conversa entre clientes e livreiros, sendo o livreiro Dionisius Amendola bastante aberto e atento aos clientes. Dito isso, trata-se de um ambiente simpático, sendo quase impossível passar por lá sem se interessar por algum título.

endereço: R. Ferreira de Araújo, 373 — Pinheiros, São Paulo — SP, 05428–050

conheça mais: https://bit.ly/3QQLc5q

📍Ria Livraria

A Ria Livraria é um bar-livraria localizado próximo ao metrô Vila Madalena, sendo bastante ativa no período da noite, com horário de funcionamento que se inicia às 16h30. Trata-se de um lugar descontraído, que resgata a coexistência entre literatura e boemia, marcante na história literária brasileira. Com uma curadoria literária impecável, também faço um destaque para os deliciosos pastéis que compõem o cardápio.

A Ria Livraria realiza eventos literários como lançamentos, apresentações, além de ter um espaço voltado à oficinas e cursos no piso superior.

endereço: R. Marinho Falcão, 58 — Sumarezinho, São Paulo — SP, 05440–050

conheça mais: https://bit.ly/3A96t4C

e vocês? Quais são seus favoritos do semestre? ✨

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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Laura Redfern Navarro

Laura Redfern Navarro

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.