Leituras do mês — maio/2022

O mês de maio foi recheado de leituras de todos os gêneros por aqui, já que tive mais tempo para me dedicar à literatura. De lançamentos à releituras, a ideia do encontro continua reverberando fortemente em mim enquanto leitora. Faço um destaque também ao fato de que, este mês, mergulhei mais profundamente na produção literária feita por mulheres, além de estar me abrindo mais para escritas subversivas, experimentais e diversas.

Pensando essa literatura mais experimental (ou, até mesmo, híbrida), o livro que mais me marcou foi Por que a criança cozinha na polenta, da romena Aglaja Veteranyi, com tradução de Fabiana Macchi. Também me chamaram a atenção os livros MEADA, plaquete artesanal de Anna Clara de Vitto; Confissão, de Cláudia Lucas Chéu (editora Reformatório) e Somente nos Cinemas, de Jorge Ialanji Filholini (Ateliê editorial)

*alguns livros não constam na foto porque foram lidos em formato digital

Confira a lista completa:

📚 A Mística Feminina, de Betty Friedan — trad. Carla Bitelli e Flávia Yacubian (Rosa dos Tempos) — neste livro, publicado em 1963, a psicóloga, jornalista e ativista Betty Friedan (1921–2006) busca investigar um “problema sem nome” nos EUA dos anos 40 e 50 que, cada vez mais, afeta emocionalmente as mulheres, em especial àquelas de classe média que, apesar de terem cumprido seu papel social tornando-se mães e esposas, experimentam um profundo vazio existencial.

📚 Escrituras de Menarca, org. Daniela Pace Devisate (Editora Essencial) — coletânea de textos literários, tanto em poesia quanto em prosa, que se debruçam acerca da menstruação e da fertilidade, trazendo nomes como Graziela Brum, Mar Becker e Maria Valéria Rezende. A antologia busca evocar a potência de um corpo feminino, abrindo espaço também para uma discussão mais ampla acerca do que é ser mulher.

📚MEADA, de Anna Clara de Vitto (ed. da autora) MEADA é a segunda publicação autoral da poeta santista Anna Clara de Vitto, tendo sido organizada em formato artesanal e também disponibilizada na internet (acesse aqui). Mesclando fotografia e verso, com uma tipografia que muito lembra uma máquina de escrever, MEADA traz um corpo feminino adolescente fraturado por um abuso, entrecruzada por imagens de uma travessia entre a Espanha e a França. Trata-se de um experimento poético-narrativo, que se estabelece na relação do eu-lírico com o mundo externo, captando sua percepção e sensorialidade fragmentada.

📚Café-teatro, de Ian Uviedo (editora Laranja Original) — segundo livro do escritor e artista paulistano Ian Uviedo, Café-teatro se debruça a ser uma obra limítrofe, isto é, que trabalha com fronteiras, elencando fotografia, poesia e prosa, além de trazer temáticas que confrontam as barreiras entre o erotismo e a violência, centrando na figura da personagem Lígia.

📚Uma mulher só não faz verão, de Daniela Rezende (Editora Urutau) — estreia na poesia de Daniela Rezende, uma mulher só não faz verão busca captar o feminino pelas lentes do mundo animal, abordando a violência contra a mulher radicalmente pela acepção da presa e do predador. São poemas disruptivos, que destacam uma escrita autêntica, marcada pela repetição, por uma firmeza que não se faz rígida, e pelas imagens provocadoras.

📚 Gótico Nordestino, de Cristhiano Aguiar (Alfaguara)Gótico Nordestino é o segundo livro de contos do escritor paraibano Cristhiano Aguiar. Com uma proposta voltada à abordagem do terror, o livro traz contos que se passam no interior da Paraíba, evocando sempre uma atmosfera macabra ou fantasmagórica. As circunstâncias onde o terror aparece são bastante provocadoras — em “Lázaro”, por exemplo, a premissa é a de uma idosa vitimada por COVID que se torna um zumbi. Assim, Gótico Nordestino trata-se de uma obra que segue uma tendência latino-americana de literatura de terror, muito se assemelhando aos escritos das argentinas Mariana Enriquez e Samanta Schweblin.

📚 O Martelo, de Adelaide Ivánova (Garupa Edições)O Martelo (2017) é o segundo livro de poemas da poeta, fotógrafa e organizadora comunitária Adelaide Ivánova, tendo ganhado o Prêmio Rio de Literatura em 2018. O Martelo trabalha em cima de uma dicotomia a fim de investigar a naturalidade da regulação e controle sobre os corpos das mulheres, trazendo a situação de uma mulher violentada que decide denunciar, sem êxito e sujeita a inúmeras humilhações; e uma outra situação, com a mesma mulher, que quer se envolver em um relacionamento adúltero com um homem que não a deseja, tendo de confrontar todas as questões morais que englobam esse contexto. O Martelo é o objeto central da minha pesquisa de TCC.

📚 Por que a criança cozinha na polenta, de Aglaja Veteranyi — trad. Fabiana Macchi (DBA) — único livro da romena Aglaja Veteranyi publicado em vida, Por que a criança cozinha na polenta traz uma proposta que mescla o diário, o poema e a prosa. Mesclando elementos biográficos à ficção, o livro narra o processo de reconhecimento de mundo de uma criança em uma situação desfavorável. Filha de artistas circenses romenos refugiados à época da Cortina de Ferro, a menina cedo se depara com a miséria e com a violência dentro e fora da família. Para se desvencilhar do próprio sofrimento, a menina, com a ajuda da irmã mais velha, passa a se entreter com uma fábula do folclore local, encontrando nela uma maneira de expressar seus sentimentos.

📚 a sexualidade de meninas ex-crentes, de Bianca Gonçalves (Garupa Edições) — publicado na coleção a galope, parceria entre as editoras Garupa Edições e Kza1, a sexualidade de meninas ex-crentes é o segundo livro de poemas da escritora, professora e performer Bianca Gonçalves. A partir da atmosfera da Igreja Evangélica, Gonçalves constrói um eu-lírico que, ao longo de seu amadurecimento, vai percebendo não se encaixar mais nas diretrizes da religião, principalmente pela descoberta do desejo e por se perceber homoafetiva. Assim, o livro traça um percurso narrativo de desvencilhamento desse eu-lírico frente aos seus valores fundantes, sem deixar de lado questões como raça, sendo as religiões de matriz africana possibilidades frente à Igreja Evangélica.

📚 Tempo sem cruz, de Flora Miguel (Editora Primata) — lançamento da Editora Primata, Tempo sem cruz é a estreia na poesia da poeta e jornalista cultural Flora Miguel. Com escritos que brincam com a objetividade e, ao mesmo tempo, com o estranhamento, o livro busca territorializar o corpo feminino principalmente dentro do contexto da militância política, abordando suas contradições, suas potências e, acima de tudo, suas subjetividades.

📚 Somente nos Cinemas, de Jorge Ialanji Filholini (Ateliê Editorial) — publicado em 2019 pela Ateliê Editorial, Somente nos Cinemas é o segundo livro do escritor, jornalista e produtor cultural Jorge Ialanji Filholini, finalista do Prêmio Jabuti em 2017 com o livro Somos mais Limpos pela Manhã (Selo Demônio Negro). Somente nos Cinemas traz uma abordagem experimentalista no que tange à construção de imagens e uso de recursos dentro do texto, sendo uma obra que trabalha a fronteira entre a literatura e o cinema, buscando, em ambas as linguagens, investigar a tessitura de uma narrativa.

📚dispersar todo sonho, de Lolita Campani Beretta (Editora Quelônio) — contendo escritos entre 2016 e 2019, dispersar todo sonho é a estreia na poesia da gaúcha Lolita Campani Beretta, cuja poesia traz um movimento de navalha — são versos curtos, mas precisos nas imagens que constroem. Beretta brinca a linguagem através da dualidade, oferecendo uma delicadeza que é abrupta.

📚 use o alicate agora, de Natasha Felix (Macondo Edições)- primeiro livro da poeta e performer santista Natasha Felix, use o alicate agora é uma provocação. Com textos marcados por um eu-lírico feminino irônico e aparentemente dono das próprias rédeas, Natasha constrói um universo que traz encontros em banheiros públicos, o ato de espremer espinhas dentro de um elevador, o personagem dúbio J., dentre outros que povoam um imaginário afetivo e erótico marcado pela vergonha, mas que, aqui, ganha a faceta do orgulho. Felix também traça interessantes diálogos com poetas como Adília Lopes, Stella do Patrocínio e Hilda Hilst.

📚Receitas de Inverno da Comunidade, de Louise Glück — trad. Heloisa Jahn (Companhia das Letras) — coletânea enxuta de quinze poemas da Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2020, Louise Glück, cuja poesia se destaca por trazer o mundo natural — marcado, principalmente, pelas estações do ano — e as temáticas simbólicas, como a passagem do tempo, a solidão, o envelhecimento, o luto, a paixão e a juventude. São poemas longos, com uma escrita narrativa e com um quê de ensaístico, cuja construção é marcada pela interdisciplinaridade — a mitologia, a filosofia, a psicanálise e a ficção.

📚 Dia sim dia não fazer chantagem, de Maria Isabel Iorio (Editora Quelônio)- publicado na Coleção Canto Quebrado da editora Quelônio, Dia sim dia não fazer chantagem é o terceiro livro de poemas da poeta e artista visual Maria Isabel Iorio. Trazendo uma tessitura experimental, que trabalha em cima do propósito de “ourobouros”, isto é, um corpo em perseguição de si próprio, Iorio elabora uma poesia afiada e enigmática, que perpassa temas como o corpo, o tempo, e os limites — ou a fragilidade deles — que está em diálogo e em confronto com uma figura materna.

📚 Confissão, de Cláudia Lucas Chéu (Editora Reformatório)- primeira publicação da editora Reformatório de autores fora do Brasil, Confissão é uma novela híbrida da escritora portuguesa Cláudia Lucas Chéu. Escrito em versos, o livro traz a perspectiva de Claudia, uma criança que cresce em meio a um contexto que a violenta — seja pela pobreza, seja pelas agressões da mãe, seja pela disfuncionalidade familiar — muito marcada pela melancolia, mas também pelo humor e pelo deslumbre do olhar infantil. Tanto no sentido temático como na forma, Confissão recorda as obras híbridas da escritora paulistana Aline Bei.

📚 fio, fenda, falésia, de Érica Zíngano, Renata Huber e Roberta Ferraz (ed. das autoras)- contemplado pelo ProAC em 2010, fio, fenda, falésia é uma obra conjunta das escritoras Érica Zíngano, Renata Huber e Roberta Ferraz. Com um formato inusitado, que relembra uma sanfona, o livro traz poemas que abordam a incursão artística de três mulheres, focando-se em trazer o estranhamento e o inconsciente como aspectos centrais dessa criação. Os textos não são assinados pelas autoras, destacando a importância da coletividade na elaboração.

e vocês? O que leram em maio? ✨

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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Laura Redfern Navarro

Laura Redfern Navarro

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.