Leituras do mês — junho/2022

Nesse mês de junho, me concentrei mais à leitura de poesia, seja por meio de novos títulos, seja por meio de releituras. E, novamente, com maior volume de leituras de autoria feminina. Faço um destaque para um maior consumo de títulos da @editoraurutau, cujo motivo, creio, seja a afinidade de alinhamento em relação à poesia, priorizando escritas experimentais e uma curadoria densa, crítica, em especial ao que tange ao feminino, com publicações que trazem um olhar sensível e plural à experiência do ser mulher.

Este foi um mês em que consumi mais literatura pelo Kindle, retomando um pouco o hábito da leitura em meios digitais. Nessa incursão, houve muita releitura, sendo uma das que mais me surpreendeu a de “A Vida Mentirosa dos Adultos”, da escritora italiana anônima Elena Ferrante.

Confira a lista completa:

📚Monstera, de Isabela Sancho (Editora Urutau) — livro de poemas da escritora, ilustradora, oficineira e arquiteta Isabela Sancho, Monstera busca trabalhar a experiência do feminino a partir de imagens do mundo natural, construindo-se uma poética que traz tanto a delicadeza quanto a brutalidade. Trata-se de uma escrita conduzida principalmente por um eu-lírico pubescente que confronta as transformações do corpo e das expectativas sociais, abrindo margem, também, para o debate natureza x cultura.

📚 Nós só compreendemos muito depois, de Laís Araruna de Aquino (Corsário-Satã) — segundo livro de poemas da premiada escritora Laís Araruna de Aquino, Nós só compreendemos muito depois revela o amadurecimento do projeto estético da poeta comparado à sua primeira publicação, Juventude (2017), sem deixar de lado aspectos fundamentais à sua poética. Trata-se de uma poesia em movimento, mas que também contempla o mundo com um olhar muito minucioso e estudado, mas cristalino, que se permite o deslumbramento.

📚:pescoço x sobreviventes, de Carla Diacov (Garupa Edições)- :pescoço x sobreviventes é um livro de poemas — que pode ser lido também como um livro de enigmas — da escritora paulista Carla Diacov, que é radical no experimentalismo ao subverter pontuações, sentidos e significados semânticos, trazendo importantes discussões sobre vivências pós-traumáticas e neurodiversidade.

📚Só eu penso assim?, de Lia Petrelli (independente) — publicada de maneira totalmente independente em formato kindle, Só eu penso assim? é um projeto da poeta e artista transdisciplinar Lia Petrelli embasado e realizado durante os primeiros meses da pandemia do COVID-19, em 2020. Numa construção que busca expandir os limites da página em diferentes formatos (caderno, kindle, etc), Petrelli traz discussões como a solidão, o sentimento de se estar diante do fim e a virtualização do mundo.

📚A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante — trad. Marcello Lino (Editora Intrínseca) — última publicação da escritora italiana anônima Elena Ferrante no Brasil, A Vida Mentirosa dos Adultos é um romance cujo melhor adjetivo para descrevê-lo seja visceral. Ao narrar a jornada de Giovanna, uma pré-adolescente napolitana de classe-média que se desestrutura ao entreouvir uma conversa entre seus pais, A Vida Mentirosa dos Adultos toca em temas como os laços — e os segredos — familiares, a adolescência e a sexualidade colocando a disparidade espacial, social e cultural da cidade de Nápoles como fio condutor.

📚 Três Línguas, de Verônica Ramalho (Editora Córrego) — Contemplado pelo ProAC em 2021, Três Línguas é o segundo livro da poeta, escritora e tradutora Verônica Ramalho, tendo sido publicado pela editora Córrego. Como sugerido no título, trata-se de uma investigação que engloba o corpo físico (a língua) e o corpo racional (a linguagem) na construção de sentidos e significados. Essa investigação percorre três eixos: o corpo físico como linguagem; a relação do corpo com o mundo externo e a linguagem enquanto corpo físico.

📚Estudo sobre o fim: Bangue-bangue à paulista, de Paula Fábrio (Editora Reformatório) — Publicado pela editora Reformatório, com apoio do ProAC, Estudo sobre o fim: Bangue- bangue à paulista é o quarto livro da escritora paulistana Paula Fábrio. Partindo de uma premissa aparentemente simples — um roubo de bicicletas num edifício de classe média da cidade de São Paulo, o romance propõe uma discussão complexa que traz a construção de subjetividades ancorada na formação social do Brasil, refletindo, ainda, sobre a tendência neofascista que começa a se popularizar no país a partir de 2016.

📚Rua sem Saída (formas breves), de Aline Bei — seguindo o fio tênue entre a delicadeza da narração e a violência dos fatos que caracteriza sua escrita, Aline Bei constrói dois eixos narrativos que acontecem em uma mesma rua: o de Diablo, filhote indesejado — isto é, feio — de uma ninhada de cachorros a serem colocados à venda; e o de Lucrécia, passadeira recém-contratada por uma mulher de classe média que se recupera de um acidente. Temas como a exploração do trabalho, o conflito de classe e os limites da maldade humana são o cerne deste conto, que também é repleto de imagens de pureza e bondade.

📚 Meninas Loucas Não Vão para o Céu, de Tóia Azevedo (Quintal Edições) — primeiro livro da poeta e artista visual Tóia Azevedo, Meninas Loucas Não Vão Para o Céu é um lançamento da Quintal Edições. Trata-se de um livro bastante ousado, que trabalha temas como instabilidade afetiva, transtornos alimentares e disfunção familiar, tecendo e desmontando o estereótipo da “mulher louca”. A escrita de Azevedo também se caracteriza por sua visceralidade e pela sua experimentação bastante singular, que subverte os limites gráficos da página, encarando-a como visualidade e enquanto corpo.

📚 Sono, de Haruki Murakami — trad. Lica Hashimoto (Alfaguara) — conto de Haruki Murakami publicado em edição especial em capa dura pela Alfaguara, Sono traz a história de uma mulher comum que se torna insone, mas não sob uma perspectiva patologizante, e sim a partir de uma narrativa em que predomina o estranho, o assombroso e o surreal.

📚Caderno de Sonhos, de Ana Gabriela Rebelo (Editora Urutau) — publicado pela editora Urutau em 2020, Caderno de Sonhos é a estreia na poesia da psicóloga, escritora e artista interdisciplinar Ana Gabriela Rebelo. Como apontado pelo título, trata-se de uma incursão pelo onírico, que engloba o fantástico, o terrível e o indizível, sempre em um movimento fronteiriço, que se estabelece entre sono e vigília, entre sujeito e coletivo e, na forma, entre o espontâneo e o meticuloso. São textos que cativam evocando um forte caráter sensorial, explorando cores, sons, cheiros e sabores, que se destacam a partir de uma apropriação singular dos recursos visuais e gráficos na escrita, marca da poesia da autora.

📚não, de Bruna Mitrano (Editora Patuá)não é o primeiro livro da poeta carioca, lésbica, epilética e favelada Bruna Mitrano. Com textos em que se submerge o horror cotidiano, trazendo a miséria, a violência, a fome e a loucura, Bruna expõe o que há ao nosso entorno, mas nos recusamos a ver.

📚 lâminas, de Dheyne de Souza (Martelo Casa Editorial)- Publicado pela Martelo Casa Editorial em 2020, lâminas é o segundo livro de poesia da escritora goiana Dheyne de Souza, com capa de Helô Sanvoy. lâminas se destaca por sua escrita bastante experimental, que abarca de versos concisos a poemas em prosa, tratando sempre o corte em suas produções — seja como temática, seja como forma. São textos que tratam principalmente da corporeidade feminina e suas rupturas dentro de contextos que variam de relações amorosas ao ato da escrita.

📚Vinte anos para descobrir minha vagina, de Anna Luxo (Editora Urutau) — Publicado pela editora Urutau em 2022, Vinte Anos para Descobrir Minha Vagina é a estreia na poesia da escritora e artista Anna Luxo, cuja incursão pela literatura lésbica e feminista já vem estabelecida há algum tempo, perpassando pelo universo dos blogs, das zines e das redes sociais. Na orelha do livro, a autora revela ter buscado inspiração em Rupi Kaur, Monique Wittig e Ryane Leão, antecipando tratar-se de uma leitura que “atinge em cheio”, dotada de criticidade e acessível, podendo alcançar — e reverberar junto — a realidade de meninas e mulheres brasileiras, em especial àquelas que enfrentam a dissidência e a marginalização: as lésbicas. Ao longo de Vinte Anos para Descobrir Minha Vagina, Luxo é crua e precisa ao trazer temas importantes, mas pouco discutidos na literatura, como a infância deslocada da ideia de feminilidade, o desconhecimento do próprio corpo, a pressão da heteronormatividade, o vaginismo e a lesbianidade enquanto territorialização afetiva e política.

📚Pão Só, de Pedro Torreão (Editora Urutau) — Publicado em 2021, Pão Só é o livro de estreia do poeta recifense Pedro Torreão. Numa escrita que perpassa o sagrado, o profano e o erótico, os poemas de Torreão se destacam pela concisão e pela cadência, trazendo a ruptura para dentro do texto sem deixar de lado a minúcia na construção dos versos.

e vocês? O que leram em junho? ✨

--

--

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Laura Redfern Navarro

Laura Redfern Navarro

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.