fantasiar para sobreviver — Por que a criança cozinha na polenta, de Aglaja Veteranyi

Destacando-se por sua escrita híbrida, que mescla poesia, romance, testemunho e até elementos autobiográficos, Por que a criança cozinha na polenta é o único romance publicado em vida pela atriz e escritora romena de expressão alemã Aglaja Veteranyi (1962–2002). Em sua edição brasileira pela DBA, o livro integra a coleção Risco:Ruído, tendo sido traduzido por Fabiana Macchi.

Por que a criança cozinha na polenta traz a história de uma família de artistas circenses refugiada da Romênia durante o regime de Nicolae Ceaușescu (1965–1989) a partir da perspectiva de uma das filhas. Exposta diariamente à violência, à miséria e ao conflito familiar, a narradora, com o auxílio da irmã mais velha, passa a se valer da imaginação a fim de escapar e elaborar sua realidade.

Numa trama complexa, mas construída a partir de frases curtas, capítulos reduzidos e trechos quase aforísticos, Por que a criança cozinha na polenta aborda temas como identidade, pátria, maternidade narcisista, incesto, a exploração infantil e a descoberta de si dentro do mundo.

Já de início, entendemos que esta criança não deseja seguir a tradição circense, experimentando extrema ansiedade e angústia em relação ao número performado pela mãe, que se pendura pelos cabelos. Como forma de lidar com esses sentimentos, a menina passa a fantasiar em torno de uma narrativa folclórica — a da criança que cozinha na polenta, história contada por sua irmã mais velha:

“(…)
Enquanto minha mãe está pendurada pelos cabelos na cúpula, minha irmã me conta A HISTÓRIA DA CRIANÇA QUE COZINHA NA POLENTA, para me acalmar.
Se eu imaginar a criança cozinhando na polenta e a dor que ela deve sentir, não preciso mais ficar pensando que minha mãe poderia cair da cúpula, diz ela.

Mas não adianta. Sempre penso na morte da minha mãe, para não ser pega de surpresa. Eu vejo a tocha pondo fogo em seus cabelos, e ela, em chamas, caindo ao chão. E, quando me inclino sobre ela, seu rosto se desfaz em chamas.

Não grito.
Joguei minha boca fora.

(…)”

(p. 39)

Entretanto, como bem se vê no trecho, sua fantasia não se desloca integralmente da realidade, estando indissociável de sua dor. Afinal, a própria história da criança que cozinha na polenta traz algo de sombrio, doloroso e inescapável. Ao longo do livro, a personagem passa a criar premissas para essa criança:

“Eu sei por que a criança cozinha na polenta, mesmo que minha irmã não queira me dizer.
A criança, de medo, se esconde no saco de farinha de milho. E adormece. A avó chega e joga a farinha dentro da água fervente, para fazer polenta para a criança. Quando a criança acorda, já está cozida.

OU

A avó está cozinhando e diz para a criança: Cuida da polenta, mexe com esta colher enquanto vou lá fora buscar lenha.
Enquanto a avó está lá fora, a polenta diz para a criança: Estou tão sozinha, você não quer brincar comigo?
E a criança pula na panela.

OU
Quando a criança morreu, Deus a cozinhou na polenta.
Deus é um cozinheiro, ele mora debaixo da terra e come os mortos. Com seus dentes, ele consegue partir todos os caixões”

(p. 81)

Assim, a narrativa passa a misturar o que é percepção real, o que é memória e o que é o exercício ficcional, este que se torna uma estratégia de sobrevivência — e de mapeamento da própria identidade, nomeando seus sentimentos em meio a um contexto que, muitas vezes, está para além de seu entendimento infantil. No trecho acima, podemos identificar a solidão, o medo, a fuga e o punitivismo que a narradora experimenta diariamente.

O livro também apresenta uma linguagem que se associa ao pensamento infantil, trazendo uma construção frasal aparentemente simples, parágrafos curtos e capítulos reduzidos também. Em entrevista, a autora, Aglaja Veteranyi afirma que “Eu não poderia ter escrito de outro jeito. Só da perspectiva de uma criança era possível relatar toda a crueldade e imoralidade dessa história” (p. 9).

No prefácio à edição brasileira, a tradutora Fabiana Macchi analisa a potência dessa tessitura, que expõe uma poética fronteiriça, em que a narrativa se estabelece justamente pelo contraste — da imaginação e da realidade; da ingenuidade e da violência; da brevidade da linguagem e da brutalidade dos fatos.

Podemos compreender, assim, que a dimensão da criança que cozinha na polenta — ou da criança que se debruça à história da criança que cozinha na polenta — são um elemento fértil e possível a uma vida absurda, com elementos absurdos. A ficção, portanto, ganha um espaço de sobrevivência, sendo uma maneira de se atravessar os dias.

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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Laura Redfern Navarro

Laura Redfern Navarro

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.