falar sobre a dor — A Orquestra dos Inocentes Condenados, de Milena Martins Moura

Lançado em 2021 pela editora Primata, A Orquestra dos Inocentes Condenados é o terceiro livro da poeta carioca Milena Martins Moura A partir de uma poesia densa e melancólica — mas com uma pitada de humor, como se vê no paradoxo que constrói o título — A Orquestra dos Inocentes Condenados perpassa temas como fracasso, luto, decepções amorosas e neurodivergência.

Aqui, portanto, a dor é um eixo. Porém, não é o único elemento que sobressai. No prefácio do livro, a poeta Bruna Mitrano afirma que a poesia de Milena parte de uma impotência — “(…) O que não significa, de modo algum, abraçar a derrota, afinal, ela escreve, ela grita, ela toca a música que hora nos embala, ora nos soterra”. Ou seja, há uma ação se desenhando para fora da impotência, evocando certa instabilidade. É o caso do poema da página 24:

“escrever de caneta azul
é sangrar um poema nobre
eu, porém, filha do medo
prefiro viver a lápis
completamente alheia ao fato
de que borrachas mancham a folha
quando usadas no excesso
de meus arrependimentos”

Neste poema, entendemos que há uma voz querendo se expressar (pela escrita) ainda que timidamente (optando pelo lápis no lugar da caneta azul), preferindo, em algum momento, voltar atrás em sua escolha. A escolha pela voz, entretanto, sempre se sobressai de alguma maneira (“de que borrachas mancham a folha / quando usadas no excesso /de meus arrependimentos”) marcando uma dor que sai para fora.

Essa necessidade de expressão da dor tão intensa no livro de Milena não é marcada apenas por ações, mas também por caminhos, ou, ainda, contra-caminhos. Somos surpreendidos, por exemplo, pelo fato de que o eu-lírico não lê porque gosta, mas para se reconhecer (pg. 34). Mais para frente, vamos entendendo que, para Milena, a dor e o vazio se entrecruzam, num conflito em que o eu-lírico se direciona a procurar ferramentas não apenas a expurgar a dor, mas para lidar com o vazio que esse expurgo deixa. É o caso do poema da página 65:

“esse vazio tem dedos enormes
segura a minha língua
numa pinça
enquanto eu me debato
ai, falta o ar,
faltam o bom
e o velho
e o conhecido
te falei que sigo hábitos rígidos
e rotinas compulsivas?
acordo, sofro, escovo os dentes e não morro
⠀⠀⠀⠀⠀todo dia
⠀⠀⠀⠀⠀todo dia
hoje eu deixei de pular os degraus ímpares da escada.
⠀⠀⠀⠀⠀quebranto
⠀⠀⠀⠀⠀cansaço
hoje eu não derramei
a lágrima da madrugada
⠀⠀⠀⠀⠀secura
⠀⠀⠀⠀⠀secura
não escurece mais às oito horas.
⠀⠀⠀⠀⠀roubaram o dezembro
⠀⠀⠀⠀⠀roubaram o dezembro
que eu lembro de quando era fácil
quando era só puxar o ar sem choro
ai, sobra sobra suor nos olhos.
eu tive tanto medo
que achei estar a salvo.
é verão sem horário
do rio de janeiro
quase em janeiro
⠀⠀⠀⠀⠀é o cortejo
⠀⠀⠀⠀⠀é o cortejo
dos corpos em negação”

Esse poema nos traz a grande sacada do livro todo: a angústia não é o acúmulo, mas o desacúmulo, a ausência. Aqui, há uma necessidade de se reconstruir em torno de um não (“faltam o bom / e o velho / e o conhecido”) o que se torna uma tentativa frustrada, evidenciando o luto do eu-lírico, que, agora, já expressa sua dor com mais segurança.

O luto e, principalmente, a frustração são eixos centrais da poesia de Milena em A Orquestra dos Inocentes Condenados, porém, o processo do livro se constrói na recostura desses sentimentos, nos trazendo o fortalecimento de um eu-lírico inicialmente desamparado, como colocou Bruna Mitrano no prefácio, a partir da expressão poética. Assim, os poemas finais do livro evocam uma superação. Isso pode ser observado no poema que encerra a obra:

“venha rápido pois tenho pressa
tenho uma pedra
então entenda
o mergulho nessa água escura
é um risco
que eu só vou aprender a viver
depois do salto
um risco é o que se corre
e eu tenho pressa
meus braços são tão fracos
e eu tenho pressa
mesu olohs tmê falhaod
e eu tenho me evitado
no reflexo do poço
eu tenho pressa
da palavra pesando meu corpo
de levantar os olhos e ver
e ver
cada silêncio é uma imagem a menos
então venha rápido
antes da próxima maré
que nessas águas repousa a coisa morta
que se perdeu de mim durante a última música”

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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Laura Redfern Navarro

Laura Redfern Navarro

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.