distopia em versos — iô, de Camila Lourenço

Publicado pelo Selo Auroras da Editora Penalux em 2021, é o segundo livro da escritora paulista Camila Lourenço. Escrito em versos, traz uma atmosfera distópica, representada pelos personagens iô e Dante, que vivem em contextos diferentes, e se apaixonam, levando à reflexão da vida que levam. Essa reflexão, para além da afetividade dos personagens, também levanta discussões relevantes acerca das questões ambientais, do descarte de lixo nas cidades e das mudanças climáticas.

Assim, a protagonista — que dá título ao livro — é uma mulher criada em uma ecovila isolada do restante da sociedade, que ficou devastada pelos efeitos da quarta Revolução Industrial. Acostumada a levar uma vida simples e rodeada pela natureza, iô vê tudo isso mudar ao momento da chegada de Dante, um homem que cresceu em meio ao plástico e à ferrugem.

A paixão entre ambos, para além de seus obstáculos, é intensa e avassaladora:

“(…)

o amor
que tem a casca sensível
de uma queimadura de terceiro grau
arrepia o peito de dante
que desperta com os ossos
desejosos
arranjados em ninho
para servir iô
e seu corpo de menina crescida
estremecido com o espanto
imenso tão imenso
de não caber dentro de si mesma
(e um pouquinho de medo)
iô deposita o que lhe sobra
em dante
nas batidas da artéria que sobem
na mesma frequência das orações
de sua gente ao anoitecer
a orelha grudada na malha de brim
a quietude
calada”

(p. 44)

Logo, percebe-se que há um foco amoroso, sensível e heróico na maneira como é conduzida a narrativa de iô e Dante, ainda que não se limite a essas questões. A escrita de Lourenço prioriza os afetos, os sentimentos e os sentidos ao mesmo tempo em que traz uma história com começo, meio e fim demarcados.

Nota-se, ainda, que as discussões ambientais e climáticas são colocadas no texto por meio das desavenças afetivas entre os personagens, como numa história de amor que exige a superação de diferenças. Assim, há um encaminhamento mais profundo, que extrapola a vida de iô e Dante, estando intimamente ligada a ela:

“iô
come carne de bicho morto
e veste seu couro
ela chora
seu querido diz

se acostume, é assim que fazemos aqui”

Portanto, podemos dizer que é um romance que traz a distopia a partir da afetividade e do lirismo, sendo uma obra interessante para se discutir com jovens ou adolescentes, já que traz o subjetivo e o lúdico — a paixão — como terreno para a discussão de temas urgentes, como o descarte de lixo nas cidades, as mudanças climáticas e a preservação ambiental.

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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