Consciência que atravessa a carne — Tempo sem cruz, de Flora Miguel

Publicado pela Editora Primata em 2022, Tempo sem cruz é a estreia na poesia da jornalista, trabalhadora de cultura e escritora Flora Miguel. Com textos que abordam o estranhamento diante do mundo partindo de uma consciência política aflorada, Tempo sem cruz é uma obra que se funda no atravessamento, principalmente relacionado à materialidade do corpo da mulher.

Assim, os poemas de Miguel trazem temáticas que vão desde a violência policial à maternidade e à menstruação, como se levantasse à pergunta: quem é a mulher dentro da militância? Ou, ainda: quem é a mulher militante no espaço cotidiano? Podemos identificar essa questão explicitamente em um dos poemas que iniciam o livro, “bandeiras” (p.15):

“o maior mistério da Grécia
morava no fato de que as mulheres podiam
sangrar por dias seguidos
sem morrer

e o sangue,
ali,
não era guerra

sangue fluxo quente corrente Mirtles enlouquecidamente
tingindo o jardim

bandeiras e
bandeiras nos varais”

Este poema — uma óbvia referência à menstruação — evidencia a separação dos sexos na maneira como se entende o mundo. O sangue menstrual não é fruto da violência da guerra, dispositivo de territorialização masculina. Mas ele não deixa de ser uma forma de territorialização, também, esta demarcada pelas bandeiras, isto é, as calcinhas no varal.

O paradoxo em Miguel não apenas coloca o feminino frente à lente masculina, mas se elabora, também, a partir da proclamação da subjetividade, como no poema “Contrapartida” (p. 27):

“rajadas de ideias pixeladas
notícias terrivelmente sérias

hoje vamos apenas
ver o sol escorregar”

Aqui, evidencia-se a consciência política do eu-lírico, preocupado com as “notícias terrivelmente sérias” a qual é exposto. Porém, nota-se uma dualidade entre essa consciência e o desejo do eu-lírico, este que quer “ver o sol escorregar”, que acaba imperando o poema. Logo, nas duas estrofes que compõem o poema, pode-se compreender duas instâncias de um mesmo eu-lírico, que, ainda que contraditórias, coexistem. E não só: nota-se, pela divisão das estrofes, uma competitividade entre as duas instâncias, como se ficasse implícita a necessidade de “pesar” a importância de cada uma.

Essa proposta de contradição se torna integrada — de maneira cruel — no poema “formiga” (p. 49–54):

“1

estender a canga
intervir
no trajeto das formigas

por entre as dobras
de chita
travar batalha
minimalista

2

A estudante de Pós-Doutorado em Entomologia do Instituto Na cional de Pesquisa da Biodiversidade Florestal, Luana C., foi res ponsável por um estudo inédito que monitora o impacto de uma fábrica têxtil de larga escala na fauna das formigas

3

desde a infância Luana C.
foi extremamente sensível

fazia dança aeróbica e clássica,
brincava sempre de teatro
– atriz é porvir
desenhava histórias sobre
seres fantásticos
em pequenos recortes
de papel furta-cor

a cada ocasião considerada especial
compunha música própria
letra e melodia
e se fazia um dia de sol e calor
coreografava a criação

costumava dizer que seria cientista
mesmo com a desenvoltura para as artes
em pura combustão

passava horas observando as galinhas
do quintal
conversava piu, piu, piá
no balanço de pneu
pendurado em enorme tronco de árvore

anotava suas considerações
num grande caderno de folhas mistas tons
de terra e céu
e encadernação feita pela mãe
com maquinário próprio
instalado na lavanderia da família

das formigas,
ao interagir forçosamente
mas ainda com o notório embaraço,
admirava a elegância:
folha que é escudo!
graveto que é lança!

4

Luana C. morreu
já tem sete anos
o rim perfurado
pela bala do milico
policializado

morreu e eu a procuro
procuro e a reinvento
que a atriz merece o melhor
papel
tons de terra e céu
pneu nunca de moto
parada em nenhuma autopista
prêmio Nobel:
melhor cientista

5

a gente sem escudo
nem lança
sem cortina sem regente
o furo agudo estridente
no canto da nossa barriga
a polícia mata a gente
como a gente amassa formiga”

No poema, identifica-se a narrativa de Luana C., personagem brutalmente assassinada pela violência policial, cuja crítica fica evidente no discurso do eu-lírico (“a polícia mata a gente /como a gente amassa formiga”).

Apesar disso, a maneira como se coloca a personagem no texto, num tom memorialístico e afetivo (que destaca a paixão de Luana por atuar, por exemplo), atravessa a criticidade objetiva, sem deixá-la de lado (“Luana C. morreu/ já tem/ sete anos/ o rim perfurado / pela bala do milico / policializado”). Assim, há uma construção que é ao mesmo tempo sensível e política, num movimento em que plano subjetivo e coletivo são arrematados, sendo quase indistinguíveis.

Por fim, Tempo sem cruz traz uma poética potente, crua, que se propõe a explorar o sujeito politicamente consciente com a intenção de atravessá-lo. Temos, então, um eu-lírico mais realista, integrado, que se destaca por sua habilidade de exprimir camadas ao pensar e ao sentir, sem haver negação ou divagação em nenhuma instância. Do contrário, Miguel nos oferece uma poética que se propõe a ser complexa e que abraça sua complexidade.

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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Laura Redfern Navarro

Laura Redfern Navarro

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.