A pandemia atravessa a linguagem — Só eu penso assim?, de Lia Petrelli

Com edição totalmente independente, Só eu penso assim? (2020) é um livro de poemas escrito pela artista transdisciplinar e psicanalista paulistana Lia Petrelli, que evoca o profundo mergulho interno, os vazios, a solidão e a discussão tecnológica suscitada pela vida durante a pandemia da COVID-19, sendo dividido em quatro partes. O projeto foi originalmente elaborado para o formato digital, estando disponível tanto para o Kindle E-reader quanto em PDF.

Em um dos textos introdutórios à edição, “Recolhimento” (p. 5), a autora revela que a escrita do livro aconteceu tanto por meio do aparato tecnológico quanto de recursos analógicos (em especial, a parte IV), aspecto que afetou profundamente seus processos de escrita e, por conseguinte, a forma e a experimentação dentro dos poemas. O texto também ressalta a função do livro como construção de identificações, afetividades e também de partilhas, pensando a solidão e a escassez de relações sociais associadas ao período de isolamento social, principalmente em seu início (o período referente ao primeiro semestre de 2020).

Só eu penso assim? traz poemas longos, em especial nas primeiras seções. Nelas, concebidas em dispositivos digitais, percebem-se duas marcas da poesia de Petrelli — o tom ensaístico do texto e a maneira como ele está disposto na página. A autora se apropria de espaçamentos, marcas de pontuação e símbolos a fim de comunicar suas reflexões valorizando a visualidade delas:

Nesse trecho, por exemplo, podemos identificar que a separação de estrofes prioriza o diagonal ao invés do linear. Além disso, nota-se uma construção que não se organiza sintaticamente, trazendo pequenos insights para o poema. Esses insights trazem uma mesma ordem de ideias, estando relacionada ao zeitgeist dos primeiros meses da pandemia (a referência aos aplicativos de comida; o uso de palavras sinônimas a “isolamento”, a menção à esperança de que as coisas melhorem).

Observa-se, assim, que se trata uma de poética digressiva, em que Petrelli procura analisar, repetir e colocar outra perspectiva aos pensamentos que o início do período de isolamento evocaram. Logo, há uma tessitura que traz muito da subjetividade da autora, mas que não deixa de lado um senso de coletividade:

Esse conflito entre individual e coletivo se torna mais evidente na parte III, intitulada “Deglutição”, em que Petrelli reflete acerca da exposição das coisas que escreve, em especial, de seus processos criativos, elencando, também, um metaprocesso de construção de Só eu penso assim?, explícito no trecho que encerra o poema:

Assim, a próxima seção — intitulada “Fluxo de Consciência” — traz uma perspectiva que muito lembra um diário, sinalizando os escritos com datas (entre março e abril de 2020, respectivamente). Neles, os textos aparecem de maneira mais “crua”, de certo modo, sem trazerem distinções de fonte, espaçamentos muito elaborados ou uma preocupação visual tão nítida, embora esses aspectos estejam presentes de alguma maneira, trazendo uma poesia amadurecida, com forte marca autoral:

“20/04/2020
Faz tempo que não escrevo letras legíveis no papel.
Me ocupei com a bagunça mental, rabisquei escrevendo sentimentos
indecifráveis.
Não me lembro, porque os dias passados tiveram sonos interrompidos.
Já não gosto de morar com outras pessoas. Preciso me mover para fora
Todos precisamos.
A falta das coisas tem me consumido.
Prefiro nascer outra vez.
Toda semana é um nascimento diferente.
Não posso acompanhar.”
(p. 55)

Por fim, podemos notar que se trata de uma poética de monólogo, mas que reverbera no coletivo ao trazer a discussão da linguagem como central, seja na forma (as experimentações em diferentes dispositivos) ou no conteúdo (as diferentes maneiras de se olhar o mesmo caos mental). Lendo Só eu penso assim? num período considerado “pós-pandemia”, é possível identificar que há uma potente verve questionadora que ainda hoje se faz relevante, principalmente ao colocar para se pensar o lugar da tecnologia, da linguagem e da interação dentro de novos contextos sociais.

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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Laura Redfern Navarro

Laura Redfern Navarro

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.