a escrita: existência insubmissa — Meninas Loucas Não Vão Para o Céu, de Tóia Azevedo

Lançado em 2022 pela Quintal edições, Meninas Loucas Não Vão Para o Céu é o primeiro livro de poemas da escritora e artista visual baiana Tóia Azevedo. O livro aborda a formação de uma voz poética partindo, como sugere o título, da subversão do estereótipo da “mulher louca”.

Meninas Loucas Não Vão Para o Céu é organizado em seis partes, com poemas que dialogam entre si enquanto composicionais no processo elaborativo do eu-lírico, sendo dividido em “partes” anunciadas por páginas em preto que apresentam um poema em prosa com título numerado (de I a VI) relacionado ao conteúdo daquela seção, como uma espécie de prefácio. A “seção” final, VI, é constituída apenas pelo poema na página preta, evocando a ideia de ruptura ou de um fechamento de ciclo.

Nas seções, encontramos uma espécie de fio-condutor narrativo, em que (I) eu-lírico perpassa pela infância (I), pela adolescência (II, III e IV) e pela fase adulta (V), marcando o surgimento de uma identidade que não deixa de lado a forma como ela reverbera coletivamente. A partir da história de um eu-lírico feminino profundamente marcado pelo senso de inadequação, temos uma jornada de reestruturação de um corpo que se sente espalhado e suspenso no mundo, que se pensa e se repensa enquanto mulher, enquanto artista e enquanto escritora.

Os poemas de Tóia Azevedo se destacam pela liberdade na experimentação das formas, trazendo uma preocupação com o som, com a palavra e com a visualidade do texto, buscando explorar principalmente a instabilidade (a loucura), tema central de Meninas Loucas Não Vão para o Céu. Nesse sentido, trata-se de uma poética muito bem calibrada dentro da proposta do livro, se desdobrando em situações como o rigor da educação religiosa, o abuso sexual na adolescência, as conturbadas relações familiares, o uso de substâncias, os distúrbios alimentares e os fracassos afetivos.

Nesse movimento, quase uma dissecação, Tóia traça diálogos com artistas como Francesca Woodman(1958–1981), Hilda Hilst (1930–2004) e Sylvia Plath (1932–1963), que, se enquadrando na narrativa da “mulher louca”, reverberam identificação e reconhecimento, tornando o livro uma tentativa coletiva a fim de subverter esse rótulo.

Não só isso, trata-se também da tentativa de trazer a linguagem e a expressão como caminhos opostos ao que normalmente toma as mulheres enquadradas nesse estereótipo: a morte. Em especial, a morte trágica, prematura e auto-induzida, sintoma de um silenciamento misógino, profundo e paralisante. Logo, o que Tóia propõe é a ruptura desse silenciamento enquanto signo de uma pulsão de vida, algo que fica explícito já na dedicatória:

“a todas as meninas loucas que não puderam gritar antes de mim”

Nota-se que se trata de um movimento subversivo, esse carregado pela insubmissão e desobediência — características, essas também, muito associadas ao constructo social da mulher louca. Essa provocação — acerca dos vários significados da loucura feminina — fica evidente nas epígrafes:

“Ela vai cortar a garganta aos dez, se já é louca aos dois”
Sylvia Plath

“Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?”

Hilda Hilst

Observa-se que as epígrafes de Meninas Loucas Não Vão Para o Céu trazem a autoria de duas escritoras que ressoam fortemente dentro do trabalho de Tóia Azevedo — Sylvia Plath e Hilda Hilst, que, como comentado anteriormente, ficaram conhecidas não apenas pela qualidade de sua obra, mas por sua postura irreverente aos padrões da época, integrando o arquétipo da “mulher louca”.

Também podemos perceber que ambas as epígrafes trazem a palavra “louca”, mas de jeitos diferentes: fica claro, na epígrafe de Sylvia Plath, que a loucura traça um diálogo com a morte (“vai cortar a garganta aos dez”), essa morte que, no caso, seria da voz e, assim, de uma autonomia. Porém, essa morte, essa decisão, ainda estaria nas mãos da “menina louca”. Ou seja, há a subversão da loucura, pensando-se que originalmente os estereótipos ligados à loucura estariam na ausência (ou incapacidade) de agir.

Já Hilda Hilst complementa essa preposição desafiadora jogando a loucura por outro viés — o da misoginia- ao comparar o adjetivo “louca” a “pura” e “moça”, três estereótipos ainda muito utilizados para se classificar uma mulher tendo por base seu comportamento, sendo “pura” sinônimo de “virgem”; e, “moça”, de “mulher jovem e educada” . Levando em conta a crítica ao cristianismo e a territorialização do corpo feminino que o livro busca discutir, essa que busca autonomia, já entendemos o que nos espera à frente: a “loucura” enquanto a destruição desses valores.

Já nos primeiros poemas, esse eu-lírico irreverente — a menina louca — toma o espaço para si, ainda que na sua bobagem, na sua fabulação, transpassada por um ambiente religioso, cristianizado. Essa ficcionalização mais lúdica, mas corajosa, fica evidente, por exemplo, no poema primeira confissão(p. 26):

“não tinha muito
o que falar
então inventei que
odiava minha
mãe”

Aqui, nós não sabemos a quem essa confissão se dirige — uma amiga, um terapeuta ou um padre. Porém, entendemos que aqui há a quebra de convenções, que aparece de forma descarada. A primeira, quando Tóia diz inventar numa confissão — ou seja, reinventa o propósito da atividade. Pensando, ainda, a insistência em se colocar a literatura produzida por mulheres como “confessional”, temos aqui a nascente da poeta irreverente que se impõe o direito à ficção ou, melhor ainda, da subversão da linguagem.

Essa quebra de convenções também se dá no fato que ela inventa: odiar a própria mãe, algo talvez socialmente incabível ou intolerável. Sendo assim, algo tão estranho à nossa narrativa, nos faz reagir quase que de imediato. Ou, talvez, perguntar. Como? Por quê? O que a sua mãe te fez?. E essa curiosidade, ou essa reatividade, são o que alimentam — ou estruturam — o direito à ficção colocado em “inventar”.

Na prosa que abre a seção II (p. 29), esse desejo de invenção se torna radical, indissolúvel do eu-lírico. Iniciando-se com “Me desculpe, eu escrevo como mulher, eu sou mulher, escrever como mulher deveria então ser lógico, dois mais dois igual a quatro igual a três”. Num intenso fluxo de consciência, aqui Tóia parece mais consciente de sua condição não apenas como ficcionista, mas também como mulher. O texto, então, soa menos despropositado e mais provocador, em uma linguagem e pontuação furiosa (“(…) Por que então esperam que eu escreva como um homem??????? Por que clamam homem como referência e mulher como relativa?”) que quer, sim, assumir, aos homens: eu sou diferente de você, mas também posso escrever.

É importante ressaltar que a seção II traz poemas relacionados à experiência de um abuso sexual fundante à própria trajetória, sendo a perda da própria virgindade. Logo, questionando a escrita, ela também questiona a própria materialidade de seu corpo e, mais do que isso, assume a posição de ficcionista como uma posição para além da vontade masculina. É como se Tóia gritasse: eu sobrevivi, dando às caras a sua intenção de retomar o próprio corpo.. É aqui que a menina entende — sou uma mulher. E por isso escrevo.

E este espaço de retomada também permeia um espaço de desejo, também atravessado pela necessidade de fabulação. Isso fica evidente no poema da seção IV, Freudiana(p. 64):

“Falo de você
para o meu analista
seus descompassos
rigidez
a mentira
falo do seu falo
para o meu analista
meio constrangida
quase que coagida
a oferecer
entretenimento de qualidade”

Aqui, com um trocadilho inteligente entre o verbo falar e o falo, termo próprio da psicanálise, o eu-lírico relata, com alguma vergonha, do desejo e da atração, essa que é interrompida ou demorada a ser expressa, mas que é, paradoxalmente, libertadora. A ação inicialmente parte do eu-lírico (“Falo de você”), mas fica entabulada ao longo da construção (“meio constrangida/quase que coagida”), embora saia, ao final: “entretenimento de qualidade”. Ou seja, trata de um processo de expressão e repressão, que vai se esvaindo, tornando-se humorística e, enfim, liberta Tóia do conflito — o de elaborar a própria sexualidade no processo de análise.

Porém, a elaboração da linguagem nem sempre é um processo que envolve a criação, mas, também, o descontrole, a destruição e a morte. Esse movimento disruptivo aparece no poema da parte V “Cadernocídio” (p. 87):

“Vou arrancar as folhas de todos
os cadernos ainda não
usados
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀aqueles comprados nas feirinhas
de antiguidade
na loja do lado de casa
na daiso — vou arrancar
cada miolo a contragosto
o contraste da capa solta com a lombada surrada
confundindo as palavras
ainda não escritas
escoradas em neurônios ainda não nascidos

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀[e como não nascem novamente só virão ao mundo
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ na próxima encadernação]

Ah dai-me senhor a paciência que
preciso! Irei rasgar
cada um em pedacinhos
e devorarei todos como uma esfinge
que esqueceu a resposta para
o seu próprio
enigma”

Contrapondo o exercício da ficção proposto no restante do livro, aqui se tem como objetivo o expurgo ou a destruição da linguagem e da criação, ou da tessitura material da escrita (o caderno). O poema, porém, se constrói num paradoxo interessante: a possibilidade dessa destruição enquanto uma outra criação — afinal, o que se quer destruir são cadernos em branco, como se surrasse, neles, a palavra. Ou seja, a contra-expressão também é a ruptura do não expressado. O final de “Cadernicídio” é cirúrgico ao dizer “e devorarei todos como uma esfinge/que esqueceu a resposta para/o seu próprio/enigma”, propondo uma nova abertura dessa fissura, uma leitura do exercício de criação como um renascimento.

Por fim, Meninas Loucas não Vão para o Céu é uma experiência que propõe a ruptura a partir de recriação de um espaço para a expressão, já que o céu não é uma opção. Trata-se, assim, de uma poesia-experimento, essa que é, no fim das contas, o experimento da autonomia e da subversão, que acontece como linguagem.

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2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.

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Laura Redfern Navarro

Laura Redfern Navarro

2000. Em reinvenção. Poeta & Jornalista. Editei em Ano II: Ensaio. Escrevo e investigo testemunhos da corporeidade feminina e da linguagem do abismo.